Porradas da vida

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Uma pequena praia australiana de New South Wales chamada Maroubra Beach, segunda reserva australiana de surf do país desde 2006, tem tantas histórias de bastidores que dois filmes já foram feitos para retratar seu cotidiano marcado por violência, lares desfeitos, localismo e bebedeiras. O primeiro foi o polêmico “Bra Boys”, documentário que mostrou o surgimento da gangue que mudou o cenário de Maroubra, co-produzido por Macario de Souza, que agora volta à cena dirigindo integralmente o recém-lançado “Fighting Fear”.

 

Misto de filme de surf e documentário social, o longa traz novamente os Bra-Boys como protagonistas. Desta vez, os personagens são o big rider Mark Mathews e o polêmico surfista e lutador de MMA (Mixed Martial Arts) Richie Vaculik, que cresceram no universo política e socialmente incorreto de Maroubra, atualmente já diferente.

 

Em “Fighting Fear”, Macario conta a história real de dois melhores amigos dentro e fora da água, falando sobre cometer erros e o estrago que eles fizeram para si mesmos, para suas famílias e amigos. O filme enfatiza o processo de redenção dos dois surfistas e mostra que é possível fazer melhor quando se tem uma segunda chance. Acima de tudo, é uma história sobre amizade verdadeira.

 

“Acho que todo mundo precisa de influência positiva para lutar e derrotar seus medos. Valculik e Mathews foram vencedores”, diz Macario, também conhecido como Kid Mac.
O aterrorizante caldo de Mathews em Shipstern Bluff, na Tasmânia, é relatado com detalhes através de imagens extraordinárias. Ele fala sobre os traumas físicos e psicológicos e como conseguiu surfar de novo e recuperar sua carreira, que estava desmoronando. Richie, seu amigo de infância e companheiro de big surf, optou por virar lutador profissional de MMA.
Entretanto, assim como outros Bra Boys, afundou-se na vida de festas, excesso de bebida, brigas e acabou na cadeia. “Eu me envolvi em um monte de problemas e tomei decisões estúpidas. Depois de chegar no fundo do poço, percebi que se quisesse levar alguma carreira a sério não poderia continuar daquele jeito”, conta Vaculik. A vida desses amigos é dissecada sem cortes através de entrevistas francas, imagens de arquivo e reconstituições muito realistas, após três anos de filmagem.
O filme traz ainda entrevistas com Tops mundiais do surf como Kelly Slater, Mick Fanning e Bruce Irons e depoimentos do lutador havaiano BJ Penn. “Fighting Fear” também causou polêmica entre os críticos, mas não peca por falta de excelentes imagens de surf. Aqui vale uma dica: depois dos créditos no fim do filme, não deixe de ver a sessão de Mathews e Vaculik na madrugada em “Ours”, Sydney, uma das mais pesadas ondas do mundo.
Raízes brasileiras

O diretor Macario de Souza, de 28 anos, nasceu em Sydney mas é filho de brasileiros de Minas Gerais. O interesse pelo cinema começou aos 14 anos, quando pegou emprestada a câmera Hi-8 de sua irmã. Dois anos mais tarde, ele comprou sua própria mini-DV e começou a filmar seus companheiros de surf em Maroubra Beach.
Logo ingressou na Escola de Artes de New South Wales e assim que se formou usou seu talento para produzir filmes de surf. Em Bra Boys, de 2009, foi co-produtor e responsável por várias faixas da trilha sonora do filme, já que também é músico, conhecido por Kid Mac. Falamos com o diretor em Sydney, pouco antes do lançamento de seu novo single, “Nobody Sleep Nobody Get Hurt”, faixa do set de “Ours” em “Fighting Fear”. No começo de 2012 ele vem ao Brasil junto com a banda The Beautiful Girls.

Qual é a mensagem principal do filme?

Quero levar uma mensagem positiva para as pessoas, principalmente os jovens. Mesmo quando se comete erros graves, é possível mudar e fazer melhor. Temos que levantar, lutar contra nossos demônios, livrar-se do passado conturbado e vencer os medos. A amizade verdadeira é um laço muito importante e um bom amigo pode mudar sua vida.

Por que você escolheu Mark Mathews e Richie Vaculik para o documentário?

Nós crescemos juntos e suas histórias de vida são inspiradoras, já passaram coisas terríveis na infância e na vida e superaram, por bem ou por mal. Eles não são nomes conhecidos mundialmente e senti que a história deles precisava ser contada.
Qual é a sua opinião sobre a atuação dos Bra Boys em Maroubra?

Eu sou um Bra Boy, somos uma irmandade, uma família muito unida. Maroubra tem uma rica história da cultura surf que ultrapassa 100 anos. Os Bra Boys são apenas mais uma geração dessa cultura. Como acontece em toda a família, sempre tem um que se envolve em problemas. Nós não escondemos que um ou outro se envolva em situações desagradáveis. Tudo o que podemos fazer é tentar ajudar aqueles que precisam de orientação e esperamos que os caras mais jovens sigam o exemplo.

A bandeira do Brasil aparece em uma das cenas do filme. É uma homenagem às suas raízes?

Não, a bandeira do Brasil aparece lá porque a academia em que o Richie treina é de brasileiros. Mas tenho muito orgulhoso das minhas raízes. Meus pais são de Minas Gerais e eu me considero um brasileiro também. Tenho orgulho de ser presenteado com ambas as culturas.

Como é a sua relação com a música, o surf e o cinema?

Eu cresci surfando e foi natural que vivesse a cultura de praia. A música e o cinema vieram logo em seguida. Sempre fui apaixonado por música. Toquei em várias bandas até o ensino médio e também comecei a brincar com câmeras de vídeo quando adolescente, filmando meus amigos no surf. Então fui para a universidade, estudei artes, cinema e música e minha paixão por tudo isso só vem aumentando. São artes que se complementam.

Tem planos de lançar “Fighting Fear” no Brasil?

Estamos trabalhando nisso, liberar um filme internacionalmente não é um processo fácil. Mas acredito que o filme será bem recebido no Brasil. E no futuro tenho vontade de conhecer melhor as histórias de surfistas brasileiros que fizeram seu nome em circunstâncias difíceis, quem sabe fazer um filme no país. Eu amo o cinema brasileiro, Cidade de Deus é meu filme favorito.